Direito de sonhar: por que a sociedade ainda impede os sonhos das mulheres?
Neste texto, vamos analisar por que a sociedade ainda impede, na prática, os sonhos das mulheres. Quando uma mulher não realiza seus desejos, é comum ouvir explicações como:
- “Ela não correu atrás.”
- “Ela abriu mão pelos filhos.”
- “Ela se acomodou.”
Mas, se olharmos de perto, veremos que não se trata de falta de desejo, força ou capacidade. Na maior parte das vezes, o que falta é algo muito simples e, ao mesmo tempo, profundo: espaço e permissão social.
A luta para ter o direito de ir à luta
Quando uma mulher tenta priorizar um sonho, o que costuma acontecer?
- Ela é questionada se “não está sendo egoísta”;
- É lembrada das responsabilidades domésticas e maternas;
- É cobrada por “abandonar” alguém;
- É criticada por investir tempo e dinheiro em si.
Na prática, parece uma luta para conquistar o direito de ir à luta. É como se a sociedade dissesse: Você pode sonhar, desde que isso não atrapalhe as necessidades de todo mundo à sua volta.
Ou seja: sonhar, desde que seja no intervalo. Essa pressão não vem só de “homens machistas”. Muitas vezes, vem de pessoas queridas, que, sem perceber, reproduzem discursos antigos:
- “Mulher direita cuida da casa.”
- “Mãe de verdade abre mão de tudo pelos filhos.”
- “Trabalhar demais fora vai fazer você perder seu casamento.”
E, assim, sonhos femininos são devorados, pouco a pouco, pelo machismo do cotidiano.
Sonhos femininos não são luxo
Dessa maneira, mulheres acabam sempre cedendo, mudando, abrindo mão por alguém que não é ela mesma. Como se o seu sonho fosse pequeno demais, supérfluo, facilmente substituível. Mas sonhos não são luxos. Sonhos são projetos de existência. Eles dizem de quem você é, de quem você quer ser e da forma como deseja estar no mundo. Quando uma mulher é forçada a enterrar seus sonhos, o que se perde não é “apenas um desejo”: perde‑se um pedaço da sua identidade, da sua potência, da sua alegria de viver.
A falsa ideia de que “é só por amor”
Uma armadilha muito comum é a romantização da renúncia feminina.
Quando uma mulher abre mão de um projeto importante por causa da família, do parceiro ou da casa, a sociedade tende a dizer que ela fez isso “por amor”. E sim, há muito amor nas escolhas das mulheres. Mas é perigoso naturalizar a ideia de que amar significa sempre deixar a si mesma por último. A pergunta que precisa ser feita é: por que o sonho dela é sempre o primeiro a ser cortado?
O amor pelos outros é verdadeiro. Mas ele não precisa custar o seu amor‑próprio.
A responsabilidade não é só das mulheres
São muitos os questionamentos sobre a existência do ser mulher, seus sonhos e seus “papéis” sociais. Mas é fundamental reconhecer que não é só sobre a vontade dela. Mais do que as mulheres quererem, o mundo ao redor precisa parar e permitir:
- Famílias precisam aprender a dividir tarefas domésticas.
- Parceiros precisam apoiar, de verdade, projetos de vida femininos.
- Empresas precisam acolher maternidade, estudo e desenvolvimento como parte da vida de uma mulher.
- A sociedade precisa parar de fingir que não vê o que faz para aprisionar mulheres em funções que qualquer pessoa funcional poderia e deveria dividir.
“Viva e deixe viver” precisa deixar de ser frase pronta e virar prática. A mudança existe para acontecer.
Sonho de mulher é também projeto de sociedade
Diante de tantos sonhos adiados, hoje o meu sonho (e o de muitas mulheres) é simples e revolucionário: que toda mulher seja vista como gente. Como pessoa inteira, e não como alguém que precisa lutar o tempo todo por permissões básicas para existir.
Sonho com a liberdade de ir e vir, ser e estar. Sonho com mulheres que não precisem pedir licença para estudar, trabalhar, empreender, descansar. Mais do que o querer da mulher, é preciso que as pessoas à sua volta entendam que ela quer. E que parem de se esconder atrás da frase “ela faz por amor” para justificar cobranças injustas e falta de apoio.
Sim, existe amor. Mas também precisa existir amor‑próprio. Que seja permitido a toda mulher sonhar e realizar. E, enquanto isso não for realidade, que você, mulher que lê este texto, tenha força para lutar por cada sonho que deseja. Não sozinha, mas ao lado de outras mulheres, redes de apoio e iniciativas que acreditam no seu direito de existir por inteiro.