Sonhos de mulher: por que é tão difícil falar dos nossos próprios desejos?
Pensar em sonhos parece simples. Mas, quando falamos de sonhos de mulher, a resposta costuma ser bem mais complexa. Afinal, de quem são os desejos que você carrega: seus ou dos outros?
Pensar em desejos e sonhos parece algo simples, quase automático. Basta alguém perguntar “qual é o seu maior sonho?” e a resposta vem. Mas, quando olhamos com cuidado para a percepção feminina sobre os próprios sonhos, muitas questões aparecem. Surge então a pergunta que dá título a este texto: por que é tão difícil falar dos nossos próprios desejos enquanto mulheres?
Esta reflexão não tem a intenção de fazer você duvidar do que sente ou de tudo o que já conquistou. O convite é outro: olhar com carinho para a forma como você tem organizado as prioridades da sua própria vida, diante dos desafios pessoais, afetivos, familiares e profissionais.
Quando pergunto em oficinas com mulheres: “Qual é o seu maior sonho?”, as respostas mais frequentes costumam ser:
- Ver os filhos crescerem saudáveis e felizes;
- Ver o marido conseguir um emprego melhor;
- Ver a mãe com saúde;
- Conseguir dinheiro para comprar algo importante para a família.
Nada disso está “errado”. Esses sonhos são legítimos, lindos e cheios de afeto. Não se trata de julgar o que você considera importante na sua vida. O foco, aqui, é outro: onde entram os seus sonhos, enquanto pessoa inteira, para além dos papéis que você ocupa?
Quando o sonho é sempre sobre o outro
Ao olhar para as respostas nas rodas de conversa, algo chama atenção: é muito comum que as mulheres se descrevam a partir de funções – mãe, esposa, namorada, filha – e não como um sujeito que existe para além disso.
E, muitas vezes, os sonhos seguem o mesmo caminho: sonhos pelos filhos, sonhos pelo parceiro, sonhos pela família.
A pergunta que incomoda, mas é necessária, é esta: Você é protagonista deste sonho, coadjuvante ou apenas expectadora?
Sonhar com a felicidade de quem amamos é natural. O que se perde, ao longo do caminho, é a ideia de que você também é alguém que merece sonhar por si mesma.
Sonhos que falam de você
Quando falamos de sonhos de mulher, precisamos abrir espaço para desejos que dizem respeito à sua identidade, ao seu prazer, à sua curiosidade. Por exemplo:
- Estudar inglês porque sempre teve curiosidade;
- Aprender uma profissão nova (como costura, beleza, gastronomia);
- Mudar de emprego para ganhar mais e viajar;
- Voltar a estudar para buscar novas oportunidades;
- Fazer um intercâmbio porque quer viver outra cultura.
Em muitos contextos, quando um homem tem esses desejos, ninguém questiona: “Mas e a família?”. Ele consegue realizar seus sonhos e manter vínculos afetivos. Quando se trata de mulheres, no entanto, surge quase uma obrigação de escolher: ou a família, ou o sonho.
Sonhos não existem para serem enterrados.
Eles são forças de movimento. Alimentam a esperança.
Nos ajudam a crescer como pessoas.
Por que sonhar é mais difícil para as mulheres?
Infelizmente, quando se é mulher, sonhar não é tão simples quanto parece no papel. E não é por falta de vontade, coragem ou capacidade de realizar. Quando pensamos nas dificuldades de uma mulher para concretizar seus sonhos, raramente se trata da sua incapacidade de querer.
O problema está nas excessivas cobranças vindas de todos os lados, o tempo todo:
- “Você vai sair à noite e deixar as crianças com quem?”
- “Vai gastar dinheiro com curso pra você?”
- “Mas isso é coisa de gente jovem, você já passou da idade.”
- “Por que mudar, se está ‘tudo bem’ assim?”
É como se fosse uma luta para ter o direito de ir à luta.
Existe uma espécie de pressão silenciosa para que mulheres estejam sempre em função de alguém: da casa, dos filhos, do marido, dos pais, da família, da empresa. Aos poucos, seus próprios desejos vão ficando em segundo plano, depois são adiados, até se tornarem um plano que “um dia” ela gostaria de viver.s próprios desejos vão ficando em segundo plano, depois são adiados, até se tornarem um plano que “um dia” ela gostaria de viver.
Quando o sonho vira lembrança empoeirada
Dessa forma, sonhos que um dia acenderam o coração acabam sendo engolidos pelo machismo cotidiano e pelo egoísmo disfarçado de “preocupação”. A cada escolha, a cada conflito, a mensagem implícita é: “seu sonho pode esperar”.
Sempre parece haver algo mais urgente que um sonho feminino.
Sempre tem uma conta, um compromisso, uma demanda que “vem antes”.
E assim, aquilo que um dia fazia brilhar os olhos vai virando lembrança empoeirada no fundo da memória – ou fica soterrado lá no inconsciente. Cada mulher lida como pode com suas frustrações, mas isso não significa que o sonho tenha deixado de existir.
Um convite: olhar para seus sonhos como mulher
São muitos os questionamentos sobre a existência do ser mulher, seus sonhos e as funções que a sociedade insiste em impor. Mas um ponto é fundamental:
Seus sonhos importam. Você não precisa desaparecer para que os outros vivam.
O objetivo desta reflexão é justamente esse: que você possa se perguntar, com sinceridade e sem culpa:
- Que sonhos eu já enterrei?
- Que sonhos são meus, de verdade, e não apenas dos outros?
- O que eu faria, se pudesse escolher só por mim, pelo menos em uma parte da minha vida?